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Existe mais poesia no olhar de quem ama de que em mil poemas que se escrevam, mas nem por isso devemos deixar de escrever mil poemas para mostrar ao mundo o que esse olhar dizia...






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    Mimosa boca errante

     


    Mimosa boca errante
    à superfície até achar o ponto
    em que te apraz colher o fruto em fogo
    que não será comido mas fruído
    até se lhe esgotar o sumo cálido
    e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
    mas rorejando a baba de delícias
    que fruto e boca se permitem, dádiva.
    Boca mimosa e sábia,
    impaciente de sugar e clausurar
    inteiro, em ti, o talo rígido
    mas varado de gozo ao confinar-se
    no limitado espaço que ofereces
    a seu volume e jato apaixonados,
    como podes tornar-te, assim aberta,
    recurvo céu infindo e sepultura?
    Mimosa boca e santa,
    que devagar vais desfolhando a líquida
    espuma do prazer em rito mudo,
    lenta-lembente-lambilusamente
    ligada à forma ereta qual se fossem
    a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
    oh chega, chega, chega de beber-me,
    de matar-te, e, na morte, de viver-me.
    Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

    Carlos Drummond de Andrade

     



    Escrito por Simone às 00h43
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